Little Boy (2016) e a descoberta da fé

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Direção: Alejandro Monteverde
Ano: 2016
Duração: 1h46
Link na Netflix: Vem aqui!

Little Boy foi uma descoberta bem despretensiosa. Já devo ter visto alguém comentando e isso ficou em algum lugar do meu subconsciente. Navegando na Netflix me deparei com a recomendação e fui fisgada pelo resumo: uma história sobre fé.

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O narrador é o próprio “Little Boy” já adulto que conta a história dos meses em que esteve sem seu pai. O filme se passa no contexto da 2ª Guerra Mundial, quando os americanos são recrutados para servir no exército e o nosso protagonista se despede do seu pai, sem grandes certezas sobre sua volta.

Pausa.

Antes disso somos apresentados a uma relação linda de pai e filho. O pai, sem saber, dá as primeiras lições sobre fé ao menino.

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O filme traz muitas referências à Bíblia, sendo a vida do próprio protagonista uma das mais fortes. Tal como o Davi do Antigo Testamento, o menino era pequeno, franzino e de aparência fraca. Tal como Davi, Little Boy enfrentava seus gigantes reais (como os meninos briguentos da cidade que o perseguiam) e emocionais (a dor da perda do seu pai).

A reflexão sobre uma fé que se reflete nas obras e que é movida pelo amor me sensibilizou desde o começo do filme, me fazendo terminar de ver quase nadando em uma poça de lágrimas. O desafio de amar o inimigo como parte fundamental do desenvolver da fé e a percepção de que nossa vontade está submetida ao tempo e ao propósito de Deus são ideias muito cristãs espalhadas em vários momentos do filme.

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O filme tem sequências muito bonitas, principalmente nas montagens que põem em paralelo a vida do pai e a do garoto. A atuação do rapazinho, o Jakob Salvati, carrega muita verdade. Os olhinhos expressam dor, medo e vergonha nos momentos certos, sem que ele precise falar uma só palavra.

É pra chorar, para pensar e para ser transformado.
E o melhor: tem na Netflix.

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“Garota Exemplar” (2014), um thriller sobre casamento, mídia e psicopatias sociais

O que eu mais gosto nos filmes de David Fincher (além de serem filmes de David Fincher, claro) são os personagens de David Fincher. Estratégicos, profundos, difíceis e longe de serem entendidos com análises superficiais do tipo “mocinhos ou vilões”. São humanos em demasia: com o caráter posto à prova em situações extremas, mostram um lado surpreendente – para quem está dentro e fora da tela.

“Garota Exemplar” (Gone Girl, 2014) segue esta linha. O novo thriller do diretor, que já brilha no gênero desde “Seven” (1995), “Quarto do Pânico” (2002 ) e “Zodíaco” (2007 ) envolve uma complicada relação entre marido e mulher e seus desdobramentos trágicos.

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Nick (Ben Affleck) e Amy (Rosamund Pike) se conhecem em uma festa e daí você já sabe: se apaixonam e decidem viver uma linda e açucarada história de amor. Os dois se casam e vivem bem até o dia que Amy desaparece e a casa onde o casal vivia apresenta indícios de que houve ali um homicídio. TAN DAN DAN!

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O enredo é desenvolvido em fragmentos de narrativa, com idas e vindas no tempo e misturando fatos do presente e do passado – estes com base nos escritos de Amy em seu diário pessoal – o que torna o filme ainda mais envolvente e faz com que o espectador sinta-se como um detetive do caso.

Vamos, aos poucos, conhecendo a intimidade do casal a partir das revelações do diário e flashbacks do passado. O relacionamento perfeito, daqueles que a gente vive se perguntando se existe mesmo, havia se tornado um caos. A dificuldade financeira era um agravante e Nick já não era o mesmo. Ao passo que começamos a entender (ou a achar que entendemos) a história dos dois, a investigação do crime aponta para um Nick culpado pela morte da própria esposa.

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Nick se vê em meio ao espetáculo sensacionalista que se transformou o caso. A mídia, que não fala de outro tema, induz toda a população a detestá-lo sem maiores comprovações e explicações. Sem saber o que fazer e prestes a ser condenado, Nick chega a pedir ajuda, e aí vai mais uma crítica irônica, a um advogado especialista em casos de homens que matam suas esposas.

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Um dos pontos altos da história, tanto em termos de composição de cena, atuação e momento dramático, fica por conta de uma cena tarantinesca muito bem conduzida pelo diretor. A cada segundo ficamos abismados com a verdadeira transformação pela qual os personagens passam ao longo do desenrolar dos fatos.

Com reviravoltas e sequências que me fizeram esquecer que passei 150 minutos na sala de cinema, o filme de Fincher permite que o espectador faça seus próprios julgamentos até apresentar, enfim, seu desfecho – que não satisfaz completamente os tarados por finais redondinhos.

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O diretor consegue extrair o melhor de Ben Affleck (o que não é tão difícil, né, gentem) e da bonitona Rosamund Pike, ambos com atuações brilhantes. O desenvolvimento e a (des)construção de caráter e personalidade dos personagens são muito bem conduzidos, tanto do casal protagonista como de personagens secundários que não deixam a desejar (que é o caso de Margo, irmã gêmea de Nick, e Rhonda, detetive do caso).

Crimes e psicopatias à parte, “Garota Exemplar” é um filme que critica a imprensa, as aparências de um casamento falido, o amor em sua forma mais doentia e trata das várias nuances de personalidade que podemos assumir quando estamos diante de situações extremas. Frio, satírico e surpreendente, o filme é daqueles que a gente fica torcendo para que leve algumas boas estatuetas de Oscar para casa.

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