“O Regresso” e a natureza como protagonista

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Tenho apreço por filmes de jornada – ou road movies, como a crítica curte chamar. São aqueles filmes cujos fatos se desenrolam quando o personagem vai de um ponto a outro movido por algum objetivo. O Hobbit é um dos mais queridos. Quem não foi cativado pela transformação vivida por Bilbo quando saiu de sua cabana charmosinha no Condado para seguir um caminho difícil para a Montanha Solitária?


Se somos modificados de alguma forma por qualquer caminho, caminhos difíceis nos transformam por completo. Ou assim deveria ser

Em O Regresso, filme indicado a uma pá de estatuetas do Oscar 2015, DiCaprio vive Glass, um homem forçado a voltar ao seu povoado quando seu grupo de exploradores foi atacado pelas flechas certeiras de um bando de indígenas na floresta. Daí segue todo tipo de infortúnio ao rapaz: frio, fome, ataques, solidão, abandono, sensação de impotência.

É tanta agonia que o público se contorce na cadeira e vira o rosto para não ver tanto sangue pintando a neve. Eu diria que nem o estômago do Tarantino digere este longa tão facilmente. Em um importante ponto de virada da história, a jornada passa a ter uma nova motivação: vingança.


A despeito do bafafá de tudo que DiCaprio aprontou neste trabalho para que dele pudesse sair sua primeira premiação do Oscar (comer fígado cru e passar frio de verdade, por exemplo), pobre Leo: a sua atuação acaba ficando em segundo plano. É a natureza pálida mostrada de forma brutal pelo diretor de fotografia Lubeski que rouba as cenas. As tomadas das árvores, montanhas, pores do sol, céu e rios nos fazem ter só uma certeza dentre as 12 indicações do longa: a terceira premiação consecutiva de Lubeski.


A técnica do diretor cativa, mas não se pode dizer o mesmo da história. O roteiro é dos mais bobos e o personagem de DiCaprio, apesar do esforço louvável do ator, não cria empatia. O que acontece não é um envolvimento com a jornada de Glass, mas sim uma torcida em uníssono para que o sofrimento acabe logo. O fim da jornada não revela um Glass transformado como Bilbo voltando para o Condado, mas apenas um homem fadigado por uma natureza impiedosa. Vencido pela própria resiliência. Vítima, tão somente, das travessuras soberbas de um diretor disposto a “impressionar”.


Cotação: * *  (regular)

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