Sobre o desmame de (nossas) chupetas

Hoje acordei com minha sobrinha aos berros.

O motivo era mais um dia do processo de desmame da chupeta (ou do “bubu” para os mais íntimos): o rompimento deste segundo cordão umbilical que toda criança cedo ou tarde vivencia. Chupeta, aquele objeto que é eufemismo para um sonoro “calem a boca desta criança“. Enquanto comia meu habitual mamão com granola, observei minha sobrinha ficando vermelha e tremendo as bochechas de tanto chorar em seu segundo dia de abstinência. Comecei a me perguntar porque é difícil largar a chupeta.

Chupeta é consolo. Quero muito aquele brinquedo, “não vou dar”, “não posso agora”, choro, choro muito, me dão a chupeta e o choro copioso em poucos minutos se transforma em lágrimas silenciosas que secam antes mesmo de chegarem ao queixo. Chupeta é também fuga contra o tédio. O movimento repetitivo de sucção daquele emborrachado todo babado funciona meio como nosso zapear de canais de TV em um domingo à tarde. Tem mais: nenhuma criança passa o dia inteiro com uma chupeta na boca, ela a procura por algum motivo. Alguma carência momentânea e inexplicável que precisa ser aplacada com o fiel objeto escudeiro que já tem até seu cheiro. Já se molda à sua boca e arcada dentária como se fosse parte dela mesma.

– Você precisa largar esse “bubu”, seu dente vai ficar feio.

O choro não parou.

– É para o seu bem!

Ela não entendeu. Naquele momento, Lara só conseguia ver minha irmã como um monstro injusto, o vilão do game, o psicopata do filme de suspense americano. Um alguém sem coração que arrancava-lhe sem motivo algo de que ela gostava tanto. É uma criança, e crianças não veem muito além do que querem naquele momento.

– Lara, quanta bobagem! – disse, enfim, a tia não muito paciente na manhã de uma segunda-feira – É só uma chupeta, caramba!

Ela me olhou com os olhos negros e amendoados de forma profunda. Calou durante alguns segundos e, neste breve momento, achei que enfim tivesse entendido. Estava me achando a Supper Nanny quando o intervalo foi interrompido por um bico dengoso e, em seguida, por berros ainda mais fortes que pareciam vir da alma. Me despedi com um beijo e inevitavelmente pensei nas chupetas que eu mesma coleciono. E isso vai de pessoas até algo que eu compro sem precisar tanto.

A diferença é que, ao contrário de Lara, no fundo eu sei que elas não serão legais para os meus dentes.

Lara, boa sorte! :)

Continue Reading

“Já chega de emagrecer”

Hoje, no banheiro feminino de um lugar qualquer, eu arrumava algum detalhe importante da blusa em frente ao espelho quando uma conhecida – diga-se de passagem, pouquíssimo conhecida – me veio com essa:

– Menina, já chega de emagrecer, né?

Pior que o comentário foi a cara de nojinho que ela fez, como se tivesse visto o próprio Esqueleto do He-Man à sua frente. Fiquei sem reação, dei um meio-sorriso e saí dali. Saí dali pensando no quanto as pessoas se acham no direito de opinar sobre nossa aparência.

Precisa emagrecer. Já chega de emagrecer. Ta na hora de engordar um pouco! Engrossa essas pernas. Suas pernas estão muito musculosas. Pinte esses cabelos brancos. Você pinta demais o cabelo! Ta precisando de um corte. Porque repicou tanto se cabelo reto está na moda? Você tem pouco peito! Você deveria tirar meio quilo de peito em cada lado.

O que me deixou feliz nisso tudo é que não me importei. Em outros tempos, eu daria uma explicação qualquer – afinal, vivemos de dar explicação a gente que não merece explicação, thats our life – e ok. Dessa vez, não.

Importo-me, porém, com essa invasão descabida. Com gente que, sem dar a mínima para quem sou e o que passo, parece se importar com meu exterior.

Me parece que o padrão estético mais detestável não é aquele ditado pela mídia; isso é muito mainstream. Padrão estético avassalador e perturbador mesmo é o padrão dos outros. Daqueles que opinam sem se importar. Das dezenas de pessoas que nos rodeiam e olham de cara feia por um ou outro motivo. E digo mais: antes um padrão imposto pela mídia de massa do que o imposto pela massa de gente que não ta nem aí.

o´pinioes

Continue Reading