Sobre não pagar 10%

Quem me conhece sabe minha opinião sobre pagar 10%: eu simplesmente não pago. E não estou sendo “amarrada”.

Acho um absurdo ter que pagar o salário do garçom sendo lanche algo já tão caro. E com isso sou teimosa pra caramba: desde já estou discordando de quaisquer argumentos a favor dessa taxa “simbólica”. O PROCON já proibiu a cobrança obrigatória, todo mundo sabe que isso é extorsão.

Mas enfim…

Fui comer um temaki num lugar que, por sorte deles, eu nem sei o nome. Fiz meu pedido no balcão e paguei no balcão, só faltou eu entrar e preparar o peixe cru. Ainda assim, notei que a conta veio com 6 reais a mais.

– Moça, não está errado?
– Não, são os 10%.
– Eu não pago taxa de serviço. Nada pessoal, só algo meu mesmo…
– Ah, ok…

Nessa hora o garçom vem com a delicadeza de um hadouken:

– Ninguém aqui tinha bola de cristal pra saber disso!

O coice me deixou tão desnorteada que só pensei em mil respostas à altura quando saí do lugar.

Parêntese. Por isso às vezes venho aqui elogiar bom atendimento. É que nessa cidade até um atendimento mediano é coisa rara. Fecha parêntese.

Outro dia, em certo estabelecimento, o garçom choramingou que os 10% eram o salário dele, do cozinheiro, do porteiro, etc. Só que se eu tivesse dinheiro pra pagar salário dos outros, eu já teria uma empresa faz tempo.

E em outra ocasião, o garçom disse que eu só poderia pagar sem a taxa se fosse direto com o gerente. Não me intimidei.

O gerente fez cara feia pro garçom e veio me perguntar se eu havia sido destratada. “Que nada, senhor, foi tudo uma maravilha, o Edgar está de parabéns”. É que eu não pago 10%.

Tenho dito: eu só pago 10% no dia em que o PROCON garantir isso também pra vendedor de sapato e roupa. Estes sim, que depois arrumam a bagunça enorme que eu fiz na loja pra, no final, levar só uma meia.

Não vou gastar quase mil reais por ano pagando pra levarem minha comida do balcão até a mesa. Em contrapartida, acho a profissão de garçom muito valorosa. O garçom é o estabelecimento conversando com o cliente, e isso é muito importante. Garçons merecem um bom salário – só que não saindo do meu bolso.

E nem precisa de bola de cristal pro óbvio.

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Não te vejo há três dias, mas te amo.

173H

Ontem visitei uma amiga grávida. Aos 4 meses de gravidez, a última vez que a tinha visto foi em seu casamento, há mais de um ano. Antes do seu casamento, não lembro quando nos encontramos pessoalmente, só sei que foi uma noite divertida de sushi, risadas e fotos de banheiro. Antes desse distanciamento, éramos amigas de todas as horas, de dormir na casa da outra, dividir bobagens e seriedades da vida, de preparar presente pra namorado, emprestar roupa e tudo isso. Só que a vida, essa engraçadinha, dá uns rumos diferentes a relacionamentos.

Somado a isso, uma verdade: sou desligada para um monte de coisas, e para amizades não é diferente. Namoro e família não: isso é coisa de todos os dias mesmo; é gente que aguenta a gente mesmo quando a gente não quer aguentar nem a gente mesmo.

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Sobre a euforia passageira com o novo ano

146H

Às vezes tenho a impressão que novo ano é tipo livro que a gente deixa de ler na metade.

Todo mundo começa meio eufórico, fazendo juras de amor ao ano e com promessas na ponta da língua – e do lápis. As festas de fim de ano dão esse clima de confraternização, abraços, há braços e amigos-para-sempre-é-o-que-nós-queremos-ser-na-primavera-ou-em-qualquer-das-estações. É uma mistura doida de balanço e planejamento que deixa todo mundo cheio de esperança. Aí, senhores e senhoras, vem janeiro.

Janeiro é festa. Ô, que mês bom é janeiro, benzatedeus. Verão, praia, férias, cidades cheias de turistas, sol nascendo cedo e todo climão mega bom que graças a Deus dura muito (ou só eu tenho a impressão que Janeiro dura uns 3 meses?). Fica todo mundo felizão e já começa a tentar alcançar as metas propostas – menos a de emagrecer porque heh, dieta nas férias nin-guém-me-re-ce.

Daí que vai passando Carnaval, aí o ano brasileiro começa meearmo, as águas de março fecham o verão, vem uns perrengues aqui e ali e em 1º de Abril essa coisa de ano novo parece mentira. A gente perde o gás e deixamos pra lá as juras de amor. Esquecemos a empolgação no mesmo lugar onde ficaram os sonhos e projetos pro bendito novo ano que nem chegou à metade e já tá velho.

Quando chega outubro, então, pobre do ano: só o que se vê é gente já torcendo pela chegada do próximo. Não damos chance aos últimos meses, como se o roteiro não pudesse ter algum ponto de virada bacana. Como se aos 45 do segundo tempo não tivesse mais gol.

É essa mania que a gente tem de desanimar. De não concluir. De largar na metade. Como se ano fosse mais empreender do que administrar: a gente se joga com um monte de projetos e alegria e aí vem Nossa Senhora do Tempo Passando e não administramos o ano que nos foi dado novinho em folha, com folhas em branco – clichê, mas verdade.

Por mais anos vividos intensamente do começo ao fim. Por um ano amado, mesmo que aos trancos e barrancos, até a hora da virada. Por brindes de Réveillon não com ar de “ah vai-te embora ano velho”, mas de “foi bonito, foi”. Que em meados deste agosto a gente ainda tenha o gosto de dizer: “vem com tudo, 2015″.

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Coral

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“Usa coral”. Esta foi minha resposta, sem maiores explicações, para o estagiário que perguntara qual cor deveria aplicar em um ícone de uma peça que estávamos produzindo. A cor coral tem uma representação tão clara em minha mente que nem tirei os olhos da tela do computador. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, até que não aguentou.

– Fê, uma dúvida.
– Sim?
– O que é coral?

O que é coral? Céus. Tinha esquecido que homens tem dificuldade para entender qualquer cor que foge da paleta do arco-íris. Ao ouvir “coral”, ele certamente pensou em uma cobra ou em um grupo de sopranos, contraltos, tenores e baixos entoando alguma canção barroca. Tentei explicar, em vão, que coral é algo meio laranja, só que não tão forte, também não tão fraco como o salmão e parece um vermelho desbotado, só que não é. O coitado fez uma cara de desespero. Apelei pro São Google.

Quando digitei “coral” na busca por imagens, uma infinidade de esmaltes, batons, saias e blazers estampava o resultado – uma coisa linda! Tá vendo? Isso é coral!

– Isso é laranja, Fê!

Tentei mostrar um laranja e um salmão lado a lado, abri uma paleta de cores, procurei exemplos reais na sala, dei uma aula de teoria das cores para o rapaz. Seus olhos, atentos, se esforçavam para acompanhar a defesa da tese. Entendeu, Felipe?

– Hehe. É estranho, né?

Splish, splash: foi o balde de água fria que eu levei. A discussão não levaria a lugar nenhum e pedi que o rapaz me apresentasse outra proposta. Verde. Tá ok, querido, vai de verde mesmo. Pensei em sugerir um verde água. Ou verde lodo. Deixei pra lá.

São exatamente esses degradês, nuances, abstrações e meios-termos que tanto abalam a estrutura das relações homem x mulher. Queremos que eles entendam com exatidão questões e sentimentos que nós mal conseguimos explicar – isto quando não os deixamos sem resposta.

Não tem jeito: somos mesmo diferentes. E tentar ir de encontro a esta realidade é enfadonho, sem futuro e tira o brilho do relacionamento. A eles, fica o recado de não perder a paciência com nossos mimimis e, até, fingir entendimento em um dado ponto da conversa. E se virar depois, claro. A nós, a percepção de que precisamos ser mais claras, não fazer jogo e ir direto ao ponto quando estamos ou não a fim de alguma coisa.

Feito isso, eles continuam com seus vermelhos e laranjas e nós com nossos corais e salmões – e tá feita a festa das cores. E nada de estresse quando ele elogiar seu lindo vestido marrom naquela noite que você estiver arrasando em um modelito bege nude.

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Resoluções de ano novo

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Já caminhamos para o final de outubro e isso só me traz uma lembrança: a lista de resoluções e objetivos para este ano. Foram apenas 10 pontos, coisa fácil, escritos na primeira folha de uma agendinha 2014 que só usei durante um mês e larguei em alguma gaveta depósito (quem não tem uma dessa?).

Falhei em um monte deles. Uns por procrastinação, confesso. Afinal, um ano demora muito e vai dar tempo! Março, agosto, setembro e agora novembro com a sensação que só me resta pensar nos presentes de amigo secreto e no peru de Natal. E claro: emagrecer pra ficar bem de branco.

Emagrecer, por exemplo. Minha meta para 2014 era somente manter o shape dos 10kg perdidos em 2013. Chegado novembro, minha meta de última hora é perder 5kg que encontrei neste ano, entre TPMs e pizzarias no domingo. Objetivos mudam. Mudam em questão de dias, que diremos de um ano?

A carteira de motorista é outro perrengue. Para este, talvez, a dificuldade tem sido superar a frustração de ter tentado em 2013 e reprovado na baliza – por culpa da avaliadora que me deixou nervosa, claro. Outra questão aí é que meu velho pai, que se dispusera a patrocinar a primeira tentativa, foi irredutível em relação ao reteste: “vai sair do seu bolso”.

Outro deles era até meio bobo: pegar meu diploma de conclusão de curso. Coloquei isso como meta porque sempre ficava horrorizada com gente que finalmente terminava o curso e, em vez de no dia seguinte já dar entrada no processo do diploma para pendurar na parede do quarto, deixava pra lá. Meses, às vezes anos sem a comprovação dos 4 ou 5 (ou mais, para os médicos) anos de labuta acadêmica. E eu sempre disse que isso não aconteceria comigo. Há 1 ano e meio digo que não vai passar da semana que vem.

E só neste rápido desabafo de 3 dos 10 pontos eu percebi o quanto 2013 e seus fantasmas ainda marcam presença em sonhos e projetos para os anos seguintes.

Poderia culpar o tempo, falta de tempo, tempo que não tem. Mas, não. Culpa minha, culpa dos rumos da vida. Vou rever a lista e tentar correr atrás de bater algumas metas só para que o champagne não tenha um gosto amargo no brinde de virada do ano. Já me chateei comigo mesma em anos anteriores por não cumprir as proposições para o ano novo. Neste ano desencanei. Navegar é preciso. Viver, não.

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Sobre micro paixões fulminantes

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Há quem ache que estar apaixonado é bom – e eu sou dessas pessoas ridículas que defendem essa teoria com fórmula matemática e tudo. Gosto de sentir o coração explodindo a cada batida, de andar na rua cantando Caetano e sentir o brilho dos meus olhos iluminando a noite e revelando o que eu não quero. Mesmo que não dê em nada. Afinal, se é para sofrer, que seja de amor e desamores.

Estar apaixonado em começo de relacionamento; apaixonar-se todos os dias pela mesma pessoa… tudo isso é muito bom. A mínima certeza de algo nos deixa bem. Agora, as micro paixões fulminantes mexem com a gente. Bagunçam minutos do nosso dia. Às vezes segundos. Não há nelas garantias e finalmente percebemos como é difícil adestrar o bicho coração.

Certa vez eu estava em Recife em uma daquelas peregrinações feitas por centenas de paraibanos quando precisam comer a famigerada costelinha do Outback. Foi enquanto subíamos a escada rolante quando o vi. Na escada ao lado. Descendo. Em direção contrária. Nos olhamos. Abaixei a fronte provavelmente ruborizada. Olhei novamente: persistente, ele continuava me observando. Quase tropeço no “ponto final” da escada. Virei o pescoço. Ele sorriu e saiu do shopping, usando um terno imponente e seguindo seu destino com um adeus silencioso que eu quase pude ouvir.

Outro dia estava a trabalho no Rio de Janeiro e fui correr na calçada de Copacabana, campeã das estampas de cangas de praia, chinelos e cartões postais. Ele vinha com mais dois amigos, correndo em minha direção como em cena de filme. Hum, era saudável… Acho que tinha uma tattoo tribal no ombro (algo que eu poderia relevar por amor). Nos olhamos, nos cruzamos e ambos olharam para trás duas ou três vezes. Talvez quatro. Até que o perdi para sempre.

Tive outra paixão arrebatadora pelo rapaz de óculos hipster com headphones. Tinha barba e pinta de nerd. Ostentava no colo um exemplar de “O Remorso de Baltazar Serapião”, livro que até hoje tenho vontade de ler por causa dele. Este caso foi platônico: o rapaz nem “tchum” para mim. Nem uma olhadinha sequer. Frustração, depressão. Os 5 estágios de um término vividos em 3 minutos. Desci do ônibus. Passou.

Fora eles, houve outros. Na fila do banco, debaixo do mesmo quiosque de praia esperando a chuva passar. Ligação por engano. Diante de uma prateleira de supermercado analisando o mesmo produto. Só que, nesses casos, a paixão é silenciosa. Uma palavra sequer não pode ser trocada.

O bom nesses casos é aflorar seu lado freudiano e interpretar gestos, roupas e sorrisos. Será que ele passa madrugadas jogando videogame? Torce para o Flamengo? Talvez seja do tipo que pega doce na mesa do bolo em festa de criança. Será que, como eu, se preocupa com o melhor filtro para o Instagram ou acha isso uma bobagem? Será que vota no PT? Ah, não. Isso eu não perdoaria.

Talvez essas paixões avassaladores de 5 segundos nos preparem para para sofrer dignamente por paixões de verdade. Que valem o sofrimento. Se não faz sofrer (nem que seja de saudade apertando no peito ou de ciúme besta) não é paixão das boas. Daquelas que viram amor. Amor de 5 meses, 5 anos, de toda uma vida. Apaixone-se.

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