Sobre a euforia passageira com o novo ano

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Às vezes tenho a impressão que novo ano é tipo livro que a gente deixa de ler na metade.

Todo mundo começa meio eufórico, fazendo juras de amor ao ano e com promessas na ponta da língua – e do lápis. As festas de fim de ano dão esse clima de confraternização, abraços, há braços e amigos-para-sempre-é-o-que-nós-queremos-ser-na-primavera-ou-em-qualquer-das-estações. É uma mistura doida de balanço e planejamento que deixa todo mundo cheio de esperança. Aí, senhores e senhoras, vem janeiro.

Janeiro é festa. Ô, que mês bom é janeiro, benzatedeus. Verão, praia, férias, cidades cheias de turistas, sol nascendo cedo e todo climão mega bom que graças a Deus dura muito (ou só eu tenho a impressão que Janeiro dura uns 3 meses?). Fica todo mundo felizão e já começa a tentar alcançar as metas propostas – menos a de emagrecer porque heh, dieta nas férias nin-guém-me-re-ce.

Daí que vai passando Carnaval, aí o ano brasileiro começa meearmo, as águas de março fecham o verão, vem uns perrengues aqui e ali e em 1º de Abril essa coisa de ano novo parece mentira. A gente perde o gás e deixamos pra lá as juras de amor. Esquecemos a empolgação no mesmo lugar onde ficaram os sonhos e projetos pro bendito novo ano que nem chegou à metade e já tá velho.

Quando chega outubro, então, pobre do ano: só o que se vê é gente já torcendo pela chegada do próximo. Não damos chance aos últimos meses, como se o roteiro não pudesse ter algum ponto de virada bacana. Como se aos 45 do segundo tempo não tivesse mais gol.

É essa mania que a gente tem de desanimar. De não concluir. De largar na metade. Como se ano fosse mais empreender do que administrar: a gente se joga com um monte de projetos e alegria e aí vem Nossa Senhora do Tempo Passando e não administramos o ano que nos foi dado novinho em folha, com folhas em branco – clichê, mas verdade.

Por mais anos vividos intensamente do começo ao fim. Por um ano amado, mesmo que aos trancos e barrancos, até a hora da virada. Por brindes de Réveillon não com ar de “ah vai-te embora ano velho”, mas de “foi bonito, foi”. Que em meados deste agosto a gente ainda tenha o gosto de dizer: “vem com tudo, 2015″.

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Resoluções de ano novo

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Já caminhamos para o final de outubro e isso só me traz uma lembrança: a lista de resoluções e objetivos para este ano. Foram apenas 10 pontos, coisa fácil, escritos na primeira folha de uma agendinha 2014 que só usei durante um mês e larguei em alguma gaveta depósito (quem não tem uma dessa?).

Falhei em um monte deles. Uns por procrastinação, confesso. Afinal, um ano demora muito e vai dar tempo! Março, agosto, setembro e agora novembro com a sensação que só me resta pensar nos presentes de amigo secreto e no peru de Natal. E claro: emagrecer pra ficar bem de branco.

Emagrecer, por exemplo. Minha meta para 2014 era somente manter o shape dos 10kg perdidos em 2013. Chegado novembro, minha meta de última hora é perder 5kg que encontrei neste ano, entre TPMs e pizzarias no domingo. Objetivos mudam. Mudam em questão de dias, que diremos de um ano?

A carteira de motorista é outro perrengue. Para este, talvez, a dificuldade tem sido superar a frustração de ter tentado em 2013 e reprovado na baliza – por culpa da avaliadora que me deixou nervosa, claro. Outra questão aí é que meu velho pai, que se dispusera a patrocinar a primeira tentativa, foi irredutível em relação ao reteste: “vai sair do seu bolso”.

Outro deles era até meio bobo: pegar meu diploma de conclusão de curso. Coloquei isso como meta porque sempre ficava horrorizada com gente que finalmente terminava o curso e, em vez de no dia seguinte já dar entrada no processo do diploma para pendurar na parede do quarto, deixava pra lá. Meses, às vezes anos sem a comprovação dos 4 ou 5 (ou mais, para os médicos) anos de labuta acadêmica. E eu sempre disse que isso não aconteceria comigo. Há 1 ano e meio digo que não vai passar da semana que vem.

E só neste rápido desabafo de 3 dos 10 pontos eu percebi o quanto 2013 e seus fantasmas ainda marcam presença em sonhos e projetos para os anos seguintes.

Poderia culpar o tempo, falta de tempo, tempo que não tem. Mas, não. Culpa minha, culpa dos rumos da vida. Vou rever a lista e tentar correr atrás de bater algumas metas só para que o champagne não tenha um gosto amargo no brinde de virada do ano. Já me chateei comigo mesma em anos anteriores por não cumprir as proposições para o ano novo. Neste ano desencanei. Navegar é preciso. Viver, não.

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