Coral

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“Usa coral”. Esta foi minha resposta, sem maiores explicações, para o estagiário que perguntara qual cor deveria aplicar em um ícone de uma peça que estávamos produzindo. A cor coral tem uma representação tão clara em minha mente que nem tirei os olhos da tela do computador. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, até que não aguentou.

– Fê, uma dúvida.
– Sim?
– O que é coral?

O que é coral? Céus. Tinha esquecido que homens tem dificuldade para entender qualquer cor que foge da paleta do arco-íris. Ao ouvir “coral”, ele certamente pensou em uma cobra ou em um grupo de sopranos, contraltos, tenores e baixos entoando alguma canção barroca. Tentei explicar, em vão, que coral é algo meio laranja, só que não tão forte, também não tão fraco como o salmão e parece um vermelho desbotado, só que não é. O coitado fez uma cara de desespero. Apelei pro São Google.

Quando digitei “coral” na busca por imagens, uma infinidade de esmaltes, batons, saias e blazers estampava o resultado – uma coisa linda! Tá vendo? Isso é coral!

– Isso é laranja, Fê!

Tentei mostrar um laranja e um salmão lado a lado, abri uma paleta de cores, procurei exemplos reais na sala, dei uma aula de teoria das cores para o rapaz. Seus olhos, atentos, se esforçavam para acompanhar a defesa da tese. Entendeu, Felipe?

– Hehe. É estranho, né?

Splish, splash: foi o balde de água fria que eu levei. A discussão não levaria a lugar nenhum e pedi que o rapaz me apresentasse outra proposta. Verde. Tá ok, querido, vai de verde mesmo. Pensei em sugerir um verde água. Ou verde lodo. Deixei pra lá.

São exatamente esses degradês, nuances, abstrações e meios-termos que tanto abalam a estrutura das relações homem x mulher. Queremos que eles entendam com exatidão questões e sentimentos que nós mal conseguimos explicar – isto quando não os deixamos sem resposta.

Não tem jeito: somos mesmo diferentes. E tentar ir de encontro a esta realidade é enfadonho, sem futuro e tira o brilho do relacionamento. A eles, fica o recado de não perder a paciência com nossos mimimis e, até, fingir entendimento em um dado ponto da conversa. E se virar depois, claro. A nós, a percepção de que precisamos ser mais claras, não fazer jogo e ir direto ao ponto quando estamos ou não a fim de alguma coisa.

Feito isso, eles continuam com seus vermelhos e laranjas e nós com nossos corais e salmões – e tá feita a festa das cores. E nada de estresse quando ele elogiar seu lindo vestido marrom naquela noite que você estiver arrasando em um modelito bege nude.

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Resoluções de ano novo

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Já caminhamos para o final de outubro e isso só me traz uma lembrança: a lista de resoluções e objetivos para este ano. Foram apenas 10 pontos, coisa fácil, escritos na primeira folha de uma agendinha 2014 que só usei durante um mês e larguei em alguma gaveta depósito (quem não tem uma dessa?).

Falhei em um monte deles. Uns por procrastinação, confesso. Afinal, um ano demora muito e vai dar tempo! Março, agosto, setembro e agora novembro com a sensação que só me resta pensar nos presentes de amigo secreto e no peru de Natal. E claro: emagrecer pra ficar bem de branco.

Emagrecer, por exemplo. Minha meta para 2014 era somente manter o shape dos 10kg perdidos em 2013. Chegado novembro, minha meta de última hora é perder 5kg que encontrei neste ano, entre TPMs e pizzarias no domingo. Objetivos mudam. Mudam em questão de dias, que diremos de um ano?

A carteira de motorista é outro perrengue. Para este, talvez, a dificuldade tem sido superar a frustração de ter tentado em 2013 e reprovado na baliza – por culpa da avaliadora que me deixou nervosa, claro. Outra questão aí é que meu velho pai, que se dispusera a patrocinar a primeira tentativa, foi irredutível em relação ao reteste: “vai sair do seu bolso”.

Outro deles era até meio bobo: pegar meu diploma de conclusão de curso. Coloquei isso como meta porque sempre ficava horrorizada com gente que finalmente terminava o curso e, em vez de no dia seguinte já dar entrada no processo do diploma para pendurar na parede do quarto, deixava pra lá. Meses, às vezes anos sem a comprovação dos 4 ou 5 (ou mais, para os médicos) anos de labuta acadêmica. E eu sempre disse que isso não aconteceria comigo. Há 1 ano e meio digo que não vai passar da semana que vem.

E só neste rápido desabafo de 3 dos 10 pontos eu percebi o quanto 2013 e seus fantasmas ainda marcam presença em sonhos e projetos para os anos seguintes.

Poderia culpar o tempo, falta de tempo, tempo que não tem. Mas, não. Culpa minha, culpa dos rumos da vida. Vou rever a lista e tentar correr atrás de bater algumas metas só para que o champagne não tenha um gosto amargo no brinde de virada do ano. Já me chateei comigo mesma em anos anteriores por não cumprir as proposições para o ano novo. Neste ano desencanei. Navegar é preciso. Viver, não.

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Trash – A Esperança Vem do Lixo

Wagner Moura, corrupção, favela, comunidade e política no cinema. Não estamos falando da continuação de “Tropa”, e sim do novo filme de Stephen Daldry. Ainda assim, podemos dizer que é uma produção bem brasileira: só lembramos que não é quando aparecem Rooney Mara e Martin Sheen nas poucas cenas de língua estrangeira.

>> Confira o trailer do filme!

O longa conta a saga de Rafael, Gardo e Rato, adolescentes que moram em uma comunidade vizinha a um lixão e que passam os dias catando lixo e tomando banho em rio de água suja. Seria um dia como outro qualquer se Rafael não tivesse encontrado uma carteira que guardava, além de alguma grana, objetos aparentemente desconexos. Nesse primeiro momento já nos é apresentado o caráter do personagem: em vez de esconder e ficar com todo o dinheiro, Rafael dá uma parte para Gardo e seu primeiro “investimento” é um frango para a família. Dá pra acreditar?

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Quando a polícia chega no lixão oferecendo uma recompensa para quem encontrar a carteira, Rafael logo percebe que ali tem treta e que há algo a ser descoberto. Incorruptíveis, os garotos não cedem à pressão e começam uma jornada que os leva a descobrir sérios esquemas de corrupção. O filme se desenvolve em uma perseguição de gato e rato por entre cortiços, casebres e esgotos da favela.

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Rooney Mara e Martin Sheen são, respectivamente, uma missionária e um padre que estão desenvolvendo um trabalho comunitário na comunidade. Aparentemente não tão bem à vontade no papel (e no lixo), a atuação dos dois é bem mediana, como se Stephen Daldry tivesse concentrado todos os seus esforços no trio novato de adolescentes. Os três rapazinhos fazem bonito em cenas de violência bem dramáticas, mas parecem forçar a barra em alguns momentos.

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Wagner Moura e Selton Mello, queridos do cinema nacional, cumprem bem seus papéis neste filme. Selton, a propósito, tem seu momento “estou aqui, Hollywood” em cenas como o diálogo com Rooney, quando precisa conversar em inglês.

O filme todo tem uma pegada bem cristã católica apostólica romana. Além de retratar o trabalho missionário e os muitos diálogos que revelam confiança em Deus e fé, a Bíblia surge como parte fundamental da resolução do crime. A última lição fica por conta de uma situação extrema que prova, de uma vez por todas, o caráter de Rafael.

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O roteiro deixa a desejar em alguns pontos que não ficam tão claros. As cenas de vídeo documentário exibidas durante o filme são bem sem graça e beeeeem forçadas. A escolha das músicas traz todos os clichês de um filme feito no Brasil por um gringo e só mexe meeeesmo com a gente durante a execução de uma música clássica bem suave em uma cena de violência – nada novo, também.

Os personagens alcançam a redenção pessoal através de suas boas obras e “deixam em paz” a alma de José Ângelo (Wagner Moura), morto na dúvida se seus planos dariam certo ou não. Ou seja: uma história para católico nenhum colocar defeito.

Trash Movie

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Eu Escolhi Desencanar

Que o movimento “Eu Escolhi Esperar” tem suas bizarrices muita gente já sabe. O EEE (vamos chamar assim por motivo de economia de lesão por digitação) prega, dentre outras coisas, a chegada de uma pessoa perfeita escolhida por Deus para você. Trata seus seguidores como principezinhos e princesinhas do Pai que terão relacionamentos que deixariam “Zé” de Alencar, grande romântico dO Guarani, morrendo de inveja. Há outros pontos criticados – a comercialização exagerada do movimento, a ideia de “corte” que Sarah Sheeva aplaude de pé e otras cositas más.

Mas, talvez, a parte dele que mais me dá nos nervos está no nome ESPERAR.

4Antes que você ache que vou implantar a nova heresia do pedaço, se acalme; não vou – já temos gente suficiente fazendo isso. Me refiro a essa vibe do movimento que deixa todo mundo literalmente à espera da chegada de sua tampa da panela, focando nesse assunto como não houvesse frigideiras no amanhã. Sabe andar na rua à noite sozinha sempre na expectativa de ser assaltado, onde todo mundo é suspeito? Mesma coisa. Suas antenas do amor não desligam um só minuto porque qualquer novo amigo ou amiga que você faz, bem, pode ser AQUELA PESSOA.

O EEE deixa todo mundo meio surtado. A página vomita nas redes sociais fotos de meninas loiras e bonitas com rapazes mais lindos ainda de mãos dadas, olhando para o horizonte e a seguinte legenda em fonte Monotype Corsiva: “não vou desistir de esperar que Deus tem para mim” e outras de deprimir qualquer moça solteira em fase de TPM.

Isso, somado a essa pressão maluca da sociedade que diz que alguém só está feliz quando o status do Facebook aponta um “relacionamento sério”, deve estar deixando muitas adolescentes meio piradinhas. Elas estão esperando que um cara perfeito, verdadeiro príncipe do Senhor, chegue em um carro branco (cavalo é demodé, mas branco continua em voga). Aí a Princesa Disney se depara, de repente, com um relacionamento de gente, de carne e osso, de verdade verdadeira. Sem trilha sonora de Crepúsculo, sem enredo do Nicholas Sparks, sem o toque de John Green. Apenas… como… a… vida… é.

Por tudo isso e mais um pouco, quero disseminar um novo movimento: EU ESCOLHI DESENCANAR.

LOL

Colega, na boa: deixa de esperar. E, principalmente, deixa de esperar a tampa certinha dessa tua panela que nem tu sabes direito a forma que tem. “Aquela” pessoa normalmente “desencaixa” em um monte de aspectos. Vem cheia de problemas, manias e defeitos – igual a você. Tem uma história de vida que nem sempre combina com a sua e planos de futuro diferentes dos seus, que vocês precisarão ajustar caso queiram ficar juntos.

Desencana de tentar descobrir a pessoa que Deus escolheu para você. Faça você suas escolhas, mantenha seu pensamento nas coisas do Alto e busque glorificar a Deus em tudo que faz. Tem como errar desse jeito? Tem não.

Vai viver, vai estudar, aprende um esporte, faz um curso online de tricô, qualquer coisa! Já sei: cria um blog, é excelente pra quem não tem o que fazer, hehehe. Porque, ao contrário do que dizem por aí, quem espera nem sempre alcança. Mas uma coisa é fato: quem desencana vive mais leve e  SEMPRE se surpreende.

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“Garota Exemplar” (2014), um thriller sobre casamento, mídia e psicopatias sociais

O que eu mais gosto nos filmes de David Fincher (além de serem filmes de David Fincher, claro) são os personagens de David Fincher. Estratégicos, profundos, difíceis e longe de serem entendidos com análises superficiais do tipo “mocinhos ou vilões”. São humanos em demasia: com o caráter posto à prova em situações extremas, mostram um lado surpreendente – para quem está dentro e fora da tela.

“Garota Exemplar” (Gone Girl, 2014) segue esta linha. O novo thriller do diretor, que já brilha no gênero desde “Seven” (1995), “Quarto do Pânico” (2002 ) e “Zodíaco” (2007 ) envolve uma complicada relação entre marido e mulher e seus desdobramentos trágicos.

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Nick (Ben Affleck) e Amy (Rosamund Pike) se conhecem em uma festa e daí você já sabe: se apaixonam e decidem viver uma linda e açucarada história de amor. Os dois se casam e vivem bem até o dia que Amy desaparece e a casa onde o casal vivia apresenta indícios de que houve ali um homicídio. TAN DAN DAN!

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O enredo é desenvolvido em fragmentos de narrativa, com idas e vindas no tempo e misturando fatos do presente e do passado – estes com base nos escritos de Amy em seu diário pessoal – o que torna o filme ainda mais envolvente e faz com que o espectador sinta-se como um detetive do caso.

Vamos, aos poucos, conhecendo a intimidade do casal a partir das revelações do diário e flashbacks do passado. O relacionamento perfeito, daqueles que a gente vive se perguntando se existe mesmo, havia se tornado um caos. A dificuldade financeira era um agravante e Nick já não era o mesmo. Ao passo que começamos a entender (ou a achar que entendemos) a história dos dois, a investigação do crime aponta para um Nick culpado pela morte da própria esposa.

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Nick se vê em meio ao espetáculo sensacionalista que se transformou o caso. A mídia, que não fala de outro tema, induz toda a população a detestá-lo sem maiores comprovações e explicações. Sem saber o que fazer e prestes a ser condenado, Nick chega a pedir ajuda, e aí vai mais uma crítica irônica, a um advogado especialista em casos de homens que matam suas esposas.

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Um dos pontos altos da história, tanto em termos de composição de cena, atuação e momento dramático, fica por conta de uma cena tarantinesca muito bem conduzida pelo diretor. A cada segundo ficamos abismados com a verdadeira transformação pela qual os personagens passam ao longo do desenrolar dos fatos.

Com reviravoltas e sequências que me fizeram esquecer que passei 150 minutos na sala de cinema, o filme de Fincher permite que o espectador faça seus próprios julgamentos até apresentar, enfim, seu desfecho – que não satisfaz completamente os tarados por finais redondinhos.

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O diretor consegue extrair o melhor de Ben Affleck (o que não é tão difícil, né, gentem) e da bonitona Rosamund Pike, ambos com atuações brilhantes. O desenvolvimento e a (des)construção de caráter e personalidade dos personagens são muito bem conduzidos, tanto do casal protagonista como de personagens secundários que não deixam a desejar (que é o caso de Margo, irmã gêmea de Nick, e Rhonda, detetive do caso).

Crimes e psicopatias à parte, “Garota Exemplar” é um filme que critica a imprensa, as aparências de um casamento falido, o amor em sua forma mais doentia e trata das várias nuances de personalidade que podemos assumir quando estamos diante de situações extremas. Frio, satírico e surpreendente, o filme é daqueles que a gente fica torcendo para que leve algumas boas estatuetas de Oscar para casa.

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John, Paul, George e Ringo free no iTunes

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Com o objetivo de divulgar os discos da carreira solo dos ex integrantes do Fab Four que foram masterizados para a plataforma, o iTunes disponibilizou no último dia 23 de setembro o EP intitulado “4: John Paul George Ringo” para download gratuito – por tempo limitado.

Abaixo, as músicas escolhidas para cada ex Beatle, seu álbum de origem e uma singela opinião da que vos escreve. Ah, tem videozinho de cada uma só pra dar o clima:

JOHN – “Love”
Disco: John Lennon/Plastic Ono Band (1970)

É a música que abre o disco. Baladinha meiga, piano suave, letra simples. O amor é simples e a escolha parece representar bem o rumo que John tomou após o fim dos Beatles nos anos 70. Eu, particularmente, não sou uma fã da carreira solo do rapaz, mas acho essa música fofa. :)

PAUL – “Call Me Back Again”
Disco: Venus and Mars (1975)

Uma escolha sensacional da fase de Paul pós-Beatles que acho que é minha preferida: os Wings. Adoro os vocais, as guitarras, os metais e a energia super boa dessa música. Curti muito a escolha!

GEORGE – “Let It Down
Disco: All Things Must Pass (1970)

Momento vinho e jantar a dois com essa música bem boa do George. “While you look so sweetly and divine, I can feel you here / I see your eyes are busy kissing mine...”. Ai, ai.

RINGO – Walk With You
Disco: Y Not (2010)

Ringo é, de todos os ex Beatles, o músico de carreira solo que menos me chama atenção. Ainda assim, fez boas músicas como esta escolhida para o EP, que eu nem conhecia e achei bem simpática.

As músicas masterizadas ficaram bem boas. Muuuuito obrigada, tia Apple, pelo presentinho.

iTuneiros, não percam a oportunidade, tá?

 

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