Morte

Não se assuste com o que vou dizer, mas às vezes tenho vontade de jogar o smartphone no mar amarrado numa pedra pesada. Ou sei lá, da janela de um carro em altíssima velocidade. Ou ainda da varanda de uma amiga que mora lá pelo vigésimo. Calma, tal violência seria somente marco de uma transformação brutal. Depois eu até poderia ter um celular para ligações. E Uber, de repente. Não, SMS não.

24 horas antes desse ato de violência, claro, deixaria mensagens de despedida em minhas redes sociais: vídeos e textões promovendo minha última causa de sofá: a “offlinezação” da vida. Um crime premeditado; um suicídio avisado. Horas depois, morte fria e cruel a todos os perfis socialmidiáticos.

Seria uma surpresa e tanto: por que ela fez isso? Logo ela, que trabalhava com o digital. Que tinha uma quantidade bacana de seguidores. Fez mestrado sobre Internet, a menina. Tinha dois blogs – um parado e outro dando tão certo, né? Coitada, ela até fazia umas publicações legais. Sabia o melhor ângulo de suas selfies. Não via um pôr do sol bonito sequer sem sentir a necessidade de fotografar, editar, postar e aguardar curtidas.

Depois disso eu ia sumir das rodas de conversa das redes. Não sei como sobreviveria nesses primeiros dias de vida (real) após a morte (virtual), mas é certo que sentiria muita falta de saber a opinião de todo mundo sobre o Michel Temer. Como eu viveria sem saber quem engravidou, viajou, comprou um cachorro, descobriu um novo disco, achou um filme sem graça, visitou o novo restaurante tailandês da cidade, começou a namorar ou se queixou dos petistas? Difícil. Inimaginável, eu diria.

Começo a desistir do sumiço quando me pego pensando, por exemplo, nas vezes em que viveria algo especial: aquele momento ficaria só entre eu e quem estaria comigo – e talvez um punhado de amigos a quem nós contaríamos histórias engraçadas sobre a vergonha que passei. Quando imagino que vou tomar um sorvete e apenas, só ficar por isso mesmo. Viajar para uma praia incrível e depois o que? Fazer um scrapbooking com as fotos para ser visto por amigos que fossem lá em casa comer um Doritos com Coca enquanto eu contaria de forma teatral os causos da viagem? Que vida estranha.

Pergunto-me se seria uma morte também de relacionamentos. Será que ainda eu ia receber mensagens de “oi, sumida” do pessoal? (Se bem que neste caso, fariam todo sentido.) Seria eu ainda chamada para festinhas surpresas de alguém do grupo? Alguém confiaria em uma pessoa estranha assim? E mais: alguém iria contratar uma publicitária sem suas próprias redes de produção de conteúdo top?

São muitas coisas a pensar antes de cometer essa barbaridade. Talvez eu não esteja pronta para olhar para a vida (e para as pessoas) sem os filtros e a molduras de um Instagram. Talvez a realidade assuste, a falta de perfeição alheia decepcione e a vida após essa morte seja solitária, reclusa, sem sentido, triste. E pior: talvez eu sequer soubesse quem sou longe dos palcos virtuais, vivendo uma absurda vida de não dar conta pública de tudo que faço, penso e falo.

Talvez eu esteja mesmo fadada a não abdicar da vida virtual e conviver com ela e suas consequências: transtornos de ansiedade, procrastinação, necessidade de afirmação, sentimentos depressivos, reconhecimento e aplausos em forma de emojis. Condenada às falsas sensações de pertencimento, das amizades troca-likes e o frequente anseio (que lá dentro existe) por sentido e significado em cada coisa que eu publico.

É, não sei se vai ser dessa vez que vou desistir da vida virtual, mas que eu tenha forças – seja para fazer isso um dia ou para suportá-la com o mínimo de sanidade…

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“WALLS”, de King of Leon, entra no TOP 5 de 2016

Saiu o disco novo do Kings of Leon, “WALLS”. Só pra adiantar o tempo de quem não quer ler esse post, É MUITO BOM E VALE A PENA VOCÊ FECHAR ESTE BLOG E CORRER PRA OUVIR! Certo? KkkkkkkkkMas agora te convido a vir comigo e passear por cada música do álbum :) Vem que vou te contar o que mais gostei em cada uma.

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‘Waste a moment’ foi liberada semanas antes e passei dias ouvindo mil vezes seguidas. Foi a melhor escolha pra ‘vender’ o disco. Tem um astral incrível, um refrão Super Bonder (chiclete é pouco) pra levantar o povo na turnê e uma bateria que eu queria MUITO saber fazer igual;

‘Reverend’ tem uma guitarra linda demais e um refrão incrível;

‘Around the World’ dá vontade de sair dançando. Sem mais;

‘Find me’ tem uma combinação de arranjo massa com letra boa e, de quebra, um baixo marcando presença (coisa que amo demais);

‘Over’ entra na cota das tristes-e-lindas e já quero versões dela acústicas;

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‘Muchacho’ tem uma história bonita de amizade escapando por cada linha, palavra, acorde e assobio. Posso visualizar uma dupla de amigos vaqueiros texanos enquanto a escuto. Linda!;

‘Conversation Piece’ mantém a vibe relax do disco com uma música sobre a Califórnia. Gosto de outras músicas com esse tema (de U2, Red Hot e outras) e faltava o Kings of Leon fazer também;

‘Eyes on you’ é uma música bem legal que sobe o astral do disco de novo, mas que não me arrebatou como as demais. Calma! Nenhum problema com a música, é que ninguém mandou o disco ser muito bom!;

‘Wild’ tem uma pegada interesse e já vai deixando saudade do disco, que infelizmente acaba na última e ÓTIMA…;

WALLS’, QUE É LINDA! Que letra, que verdade, que sentimento. Precisamos de uma cena final de filme com essa música U R G E N T E! <3

Obrigada, Kings of Leon! Discaço e, de longe, um dos 5 melhores do ano!

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Sobre não pagar 10%

Quem me conhece sabe minha opinião sobre pagar 10%: eu simplesmente não pago. E não estou sendo “amarrada”.

Acho um absurdo ter que pagar o salário do garçom sendo lanche algo já tão caro. E com isso sou teimosa pra caramba: desde já estou discordando de quaisquer argumentos a favor dessa taxa “simbólica”. O PROCON já proibiu a cobrança obrigatória, todo mundo sabe que isso é extorsão.

Mas enfim…

Fui comer um temaki num lugar que, por sorte deles, eu nem sei o nome. Fiz meu pedido no balcão e paguei no balcão, só faltou eu entrar e preparar o peixe cru. Ainda assim, notei que a conta veio com 6 reais a mais.

– Moça, não está errado?
– Não, são os 10%.
– Eu não pago taxa de serviço. Nada pessoal, só algo meu mesmo…
– Ah, ok…

Nessa hora o garçom vem com a delicadeza de um hadouken:

– Ninguém aqui tinha bola de cristal pra saber disso!

O coice me deixou tão desnorteada que só pensei em mil respostas à altura quando saí do lugar.

Parêntese. Por isso às vezes venho aqui elogiar bom atendimento. É que nessa cidade até um atendimento mediano é coisa rara. Fecha parêntese.

Outro dia, em certo estabelecimento, o garçom choramingou que os 10% eram o salário dele, do cozinheiro, do porteiro, etc. Só que se eu tivesse dinheiro pra pagar salário dos outros, eu já teria uma empresa faz tempo.

E em outra ocasião, o garçom disse que eu só poderia pagar sem a taxa se fosse direto com o gerente. Não me intimidei.

O gerente fez cara feia pro garçom e veio me perguntar se eu havia sido destratada. “Que nada, senhor, foi tudo uma maravilha, o Edgar está de parabéns”. É que eu não pago 10%.

Tenho dito: eu só pago 10% no dia em que o PROCON garantir isso também pra vendedor de sapato e roupa. Estes sim, que depois arrumam a bagunça enorme que eu fiz na loja pra, no final, levar só uma meia.

Não vou gastar quase mil reais por ano pagando pra levarem minha comida do balcão até a mesa. Em contrapartida, acho a profissão de garçom muito valorosa. O garçom é o estabelecimento conversando com o cliente, e isso é muito importante. Garçons merecem um bom salário – só que não saindo do meu bolso.

E nem precisa de bola de cristal pro óbvio.

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Buarque-se café: poesia em todo canto

Hey, amigos! Tava com saudade de postar no blog e saudade de falar de lugarzinhos <3

Moro em João Pessoa e às vezes pinta por aqui uma novidade legal com uma proposta diferente, e o Buarque-se Café é uma delas. Fui lá com uma amiga pra um café de fim de tarde e fiquei surpresa. Já esperava algo único, mas ainda assim a experiência foi diferente do que imaginei… Vou contando e mostrando as fotos no meio do post!

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Para começar, o café fica numa casa em Intermares (Cabedelo, grande João Pessoa). Lugarzinho escondido, longe do burburinho do bairro (concentrado na orla). Na verdade, o Buarque-se é uma grande casa – sim ,você tem que apertar a campainha para entrar, e isso já torna o clima mais pessoal.

 

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> Curtindo as fotos? Segue meu instagram: @fernandices

O pessoal que atendeu foi prestativo do começo ao fim, da explicação do menu até oferecer para tirar fotos minhas. O cardápio é variado e deu vontade de voltar mil vezes pra provar tudo. Eles tem uma carta de chás maravilhosa que foi a grande deixa pro meu retorno <3

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Cada cômodo da casa é um cantinho de arte. Em todo canto no Buarque-se tem livros, exposições e todas as peças e quadros lá estão à venda. Essa foto aí de cima é da salinha de artesanato. Soube que estão organizando uma biblioteca, com direito a empréstimo de livros e tudo. Fui andando por entre os corredores sozinha, tentando registrar tudo enquanto ouvia – adivinha! – Chico cantando que “todo dia ela faz tudo sempre igual”. Uma experiência!

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A comida veio com apresentação muito boa e adorei o meu pedido: quiche de queijo do reino e torta de beijinho com leite ninho. Foi, me permiti! Não tinha como! :D

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Sem mais conversa, fiquem com o restinho das fotos do Buarque-se Café, uma dica não patrocinada de uma experiência verdadeiramente legal. Soube que toda sexta tem algum evento cultural lá: sarau de poesia, lançamento de livro, música ao vivo e essas coisas que a gente ama. Volto muito em breve!

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10 coisas que aprendi não comendo industrializados

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Nesta semana eu resolvi não comer nada industrializado ou processado.

Me propus esse desafio de 5 dias para ver como meu corpo reagiria, para entender esse lifestyle e, sobretudo, a descobrir opções saudáveis. Digamos que segui 90% à risca: acabei consumindo produtos como geleia orgânica 100% fruta e óleo de coco, mas era bem raro. Não pretendo levar essa “dieta” para sempre, mas realmente percebi que é sim possível fazer trocas simples. Nesse período curtinho, pude perceber algumas coisas.

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1. Esse estilo de vida demanda tempo. A menos que você queira comer só coma fruta e ovo o dia todo (ok, exagerando), vai ter que gastar tempo na cozinha.

2. Você precisa comer BEM antes de sair de casa. Não é garantido encontrar opções naturais de verdade quando você sai com seus amigos. Quando encontra, pode ser que custe seus rins…

3. Faz bem para a TPM. Coincidentemente, foi a semana da TPM. Percebi um humor melhor do que o habitual e um corpo menos inchado (mas ainda inchado!) do que normalmente fica nesse período.

4. Você seca. Líquido, pelo menos. Como tudo que é industrializado tem muito sódio, essa redução faz com que você reduza a retenção e, assim, fica com uma aparência mais seca.

5. É difícil para caramba viver assim. Talvez pela falta de costume, achei bem difícil me virar nos lanches. Mais difícil que isso é encontrar o que comer na rua, coisa que faço demais… Como viver, por exemplo, sem um açaí cheio de frutas e mel como esse que tomei no dia anterior ao início do desafio?

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6. Sua família custa a entender. Se bem que acho que minha mãe não entende nenhuma dieta que eu tentar fazer, haha.

7. Beira o impossível seguir isso 100% à risca. Bebi leite desnatado, usei óleo de coco envasado e consumi geleia natural 100% fruta, farinha de coco orgânica (fica bom demais em fruta!) umas pitadas de sal do himalaia e outras exceçõezinhas. Isso foi beeeeeeeeem pouco em relação ao volume do que foi consumido em alimentação na semana, mas me fez admirar mesmo (e ao mesmo tempo não entender bem) a galera vegana que realmente só vive do que a natureza dá.

8. Mais do que em qualquer outra dieta, você fica antissocial. Em dietas “comuns”, é possível “escapar” ou, pelo menos, é mais fácil acompanhar os amigos em programações gastronômicas e não ficar sem comer. Comida é evento e é pura sociabilidade. Nada como evoluir numa amizade dividindo uma pizza gigante, hahaha. A questão de não comer industrializado é que isso é mais que uma dieta, é um estilo de vida. Quem vive assim, normalmente NÃO ABRE exceções ou não faz “dia do lixo”, por exemplo.

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9. Com o passar dos dias você percebe seu corpo reagindo bem. As coisas dentro de você parecem funcionar bem. A disposição teve uma melhora (digo isso porque fiz o desafio em semana de TPM, que eu fico um caquinho!) e mesmo com uma mudança de clima que rolou na cidade, não fiquei resfriada. Não pelo fato de ter simplesmente tirado industrializado, mas porque as escolhas acabaram sendo saudáveis e naturais – o que, obviamente, te faz bem de várias formas.

10. Você repensa os industrializados ditos “saudáveis”. A busca por opções no supermercado me fez atentar ainda mais para rótulos de alimentos diet/light/zero e vi que nem tudo é tão saudável como parece. Vi que há, sim, alimentos de prateleira que são bons, funcionais, saudáveis e CAROS, mas que de fato não é maioria.

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Em suma, aprendi a fazer escolhas boas, a perceber que é possível viver sem queijo e presunto (comia demais haha) e descobri opções verdadeiramente saudáveis além de cookies integrais cheios de sódio e farinha branca. Conheci uma vida que passei a admirar bastante – mesmo entendendo que minha rotina, falta de tempo e de habilidade na cozinha não me permitiriam vivê-la plenamente.

Além de tudo isso, eu deliberadamente não quero abrir mão de um hamburguer no fim de semana ou mesmo do iogurte desnatado do dia a dia da dieta – mas isso é uma coisa bem minha. Quero sim aprender a me alimentar bem e esse desafio de uma semana me ensinou bastante. Vou, na medida do possível, preferir alimentação natural e de verdade, embora não queira, por OPÇÃO, aderir a isso como um estilo de vida.

Gostei tanto que já estou pensando no próximo desafio. :)

Beijos,
Fe

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Little Boy (2016) e a descoberta da fé

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Direção: Alejandro Monteverde
Ano: 2016
Duração: 1h46
Link na Netflix: Vem aqui!

Little Boy foi uma descoberta bem despretensiosa. Já devo ter visto alguém comentando e isso ficou em algum lugar do meu subconsciente. Navegando na Netflix me deparei com a recomendação e fui fisgada pelo resumo: uma história sobre fé.

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O narrador é o próprio “Little Boy” já adulto que conta a história dos meses em que esteve sem seu pai. O filme se passa no contexto da 2ª Guerra Mundial, quando os americanos são recrutados para servir no exército e o nosso protagonista se despede do seu pai, sem grandes certezas sobre sua volta.

Pausa.

Antes disso somos apresentados a uma relação linda de pai e filho. O pai, sem saber, dá as primeiras lições sobre fé ao menino.

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O filme traz muitas referências à Bíblia, sendo a vida do próprio protagonista uma das mais fortes. Tal como o Davi do Antigo Testamento, o menino era pequeno, franzino e de aparência fraca. Tal como Davi, Little Boy enfrentava seus gigantes reais (como os meninos briguentos da cidade que o perseguiam) e emocionais (a dor da perda do seu pai).

A reflexão sobre uma fé que se reflete nas obras e que é movida pelo amor me sensibilizou desde o começo do filme, me fazendo terminar de ver quase nadando em uma poça de lágrimas. O desafio de amar o inimigo como parte fundamental do desenvolver da fé e a percepção de que nossa vontade está submetida ao tempo e ao propósito de Deus são ideias muito cristãs espalhadas em vários momentos do filme.

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O filme tem sequências muito bonitas, principalmente nas montagens que põem em paralelo a vida do pai e a do garoto. A atuação do rapazinho, o Jakob Salvati, carrega muita verdade. Os olhinhos expressam dor, medo e vergonha nos momentos certos, sem que ele precise falar uma só palavra.

É pra chorar, para pensar e para ser transformado.
E o melhor: tem na Netflix.

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